as tentações de santo antônio

um tema que produziu coisas fantásticas. comum dentre percursores do surrealismo, surrealistas ou ditos surrealistas pelo prazer e habilidade no que toca a alegorias e encarnações monstruosas. santo antônio, o egípcio, no séc III retirou-se para o deserto visando renunciar a todos os prazeres carnais, mas não foi exatamente feliz: era atormentado em suas preces por visões de satã sob as mais diversas formas, dentre estas o mundo material que recusou. comecemos com o cliché:

salvador dalí – a tentação de santo antônio, 1946.

não é dos meus preferidos, mas impossível deixar de citá-lo. os elefantes com pernas de mosquito tornaram-se tão populares que foram usados até num vídeo dos linkin park (desculpem a falta de especifidade, mas realmente não me sinto motivada a pesquisar sobre essa banda). o próprio dalí fez esculturas a partir do que carrega uma pirâmide às costas, que vi no museu dalí em montmartre, paris. é uma das representações do tema mais racionais e dirigidas, em que vêem-se as figuras, luminosas e reais, num crescendo em direção a santo antônio, que tenta se proteger em vão com um crucifixo. sua reação é de pura defesa, estando em oposição e distante dos seus tormentos. porém, percebe-se claramente que está prestes a ser vencido por sua posição inferior esquerda, quase imperceptível e esmagada. é um momento de suspensão, de incompreensão e certa esperança, a que se seguem coisas piores.

max ernst – a tentação de santo antônio, 1945.

o que falta à tentação de dalí, max ernst capturou em cheio um ano antes. a atmosfera mistura o sol escaldante do deserto, ao fundo, com a obscuridade de suas visões – como se o dia de repente morresse num pesadelo angustiante. a paisagem é retorcida e orgânica, o que é comum a ernst no período da segunda guerra, deixando dúvida sobre o que realmente tem vida e o que não; a vastidão demonstra que nenhum lugar é livre de aparições demoníacas. antônio está completamente dominado, os monstros avançando cada vez mais com prazer e nenhuma escapatória à vista. ainda assim ele reluta com agonia, mas sabe estar fadado.
ernst é um personal favourite, como dá pra perceber pelo vídeo em cima de natureza à aurora que postei há uns meses.


hieronymus bosch – a tentação de santo antão, 1500.

cá está um grande pai e que se encontra muito perto dos brasileiros: é este o painel principal do retábulo tríptico, exposto numa das salas do MASP. os painéis esquerdo e direito, e consequentemente a vista exterior, estão em lisboa. não achei o tríptico inteiro numa qualidade razoável para um trabalho de bosch, e é o painel central que mais nos interessa. antecipando o surrealismo em cinco séculos, ele nos dá o retrato mais caótico e híbrido das tentações, não se restringindo a uma luta pessoal. ao invés disso, mostra-nos como os monstros vivem muito bem e saudáveis no nosso mundo cotidiano, mas deixam um rasto de destruição crescente conforme nos permitimos dominar. todos nós somos santo antônio.
fiquei horas à frente dessa pintura, maravilhada. todos os detalhes são fascinantes, o clima sombrio e a transição para a vila em chamas é das mais graciosas. os quadros de bosch têm um quê de narrativa, mostrando propostas, argumentos e desfechos. pode-se acompanhar a destruição da humanidade com uma clareza tão grande que se torna assustadora.

matthias grünewald – a tentação de santo antônio, 1515.

contemporâneo a bosch, apresenta muitas semelhanças com a representação de ernst, estando antônio dominado em agonia. mas, ao contrário do segundo, os monstros aqui parecem muito mais organizados, articulados e pensantes, sendo quase humanos transvestidos. contrastando com o espaço terreno completamente cheio dessas criaturas, está no céu uma aparição divina(?) quase zombeteira, um borrão perto dos demônios realistas ao absurdo. em termos de técnica, é considerável o avanço desde bosch, com sua planificação e perspectiva vertical meio aérea – como se vista dos céus.

bernardino parenzano – a tentação de santo antônio, 1494.

last, but not least. num deserto que mais parece o inferno à primeira olhada, as visões viram antropomorfas. parenzano situou santo antônio algo entre o que pintou dalí e ernst, ainda antes de bosch e grünewald: não completamente dominado, mas tudo à sua volta é de uma opressão tamanha que é impossível resistir. as figuras centrais parecem se fundir numa só, em um único movimento que esboça o golpe fatal; a paisagem se assemelha a uma primitiva expressionista. os tons de castanho por todos os lados me passam a sensação de morte próxima e inevitável, de perda insubstituível da essência. antônio não se contorce, nem reluta: parece aceitar seu destino. notem os elementos tradicionais da igreja católica para satã, tomados dos pagãos: chifres, pernas e orelhas de bode, cauda e asas. alguns demônios à direita são até vermelhinhos, e outro no canto inferior esquerdo destrói a bíblia. muito conveniente para se pendurar no altar.

este é um sketch rápido e momentâneo de um estudo que pretendo aprofundar muito.

alguns não citados: as tentações de cézanne, velázquez, brueghel, deutsch, callot. mas ainda valem a pena uma conferida.

Uma resposta to “as tentações de santo antônio”

  1. mari Says:

    Muito legal esse quadro do Ernst, o mais assustador e bizarro de todos

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