sonho do dia quatorze

foi o terceiro consecutivo.

– por que você não escolhe o césar? irmão dele.

uma colina gramada. carolina e fellipe. não sei dizer se era dia ou noite.
a tamara, também?
à primeira vista aquela porta parecia ser de banheiro, mas não: era a casa de minha tia, onde vivo, e saía direto em meu quarto.

pause nisso.

um quarto de república. como o usual, é tudo muito escuro, as paredes amareladas, cheias de manchas de humidade e mofo. minha cama é a do canto, porque nunca consegui dormir no centro do cômodo. observo de outro canto minha colega a dormir, nua.
o que mais aconteceu naquele quarto?

voltemos à casa de minha tia.
os azulejos da cozinha engordurados, um cheiro pastoso no ar. ali no meio estava uma cobra branca, rija, forte, anelada, com a boca aberta escancarando as presas que gotejavam, a cabeça metida numa gaiola. em desespero, tentei fechar a portinhola para prendê-la ali, embora soubesse que ela não se moveria nunca mais. pus os olhos no canto logo à minha frente, e foi então que a revi.

a menina do vestido branco, ou o que um dia eu presumo que tenha sido essa cor. agora, já era amarelado, rasgado na bainha por ser comprido demais para a pobre criança. o estilo, da primeira década do século vinte. já encontrei-me com ela outras vezes, em sonhos e em vigília. ela se mostrou no mundo material só uma vez, quando eu contava com dez anos de idade. minha prima dormia ao meu lado. apareceu, ali, à porta, e o movimento dos braços dava a impressão de ascensão. o rosto nunca lhe vi: não me deixa, é sempre um borrão. naquela noite, chamou-me a atenção para uma nuvem negra que pairava em cima de minha prima. isto foi mesmo verdade. estava desperta e lúcida. e agora…

ela nunca havia falado comigo. as aparições foram sempre instantâneas, porque não precisavam de mais que isso – eu sabia ao que ela me queria chamar a atenção só por ter se mostrado naqueles milésimos de segundo. mas não desta vez.
ela me avisou, não sei se por palavras, que a cobra soltava um veneno no ar e que eu morreria dentro de pouco. e então ela realmente falou. sua voz era doce, e trazia uma rouquidão por tudo o que havia passado. mas era eu que não percebia ou a língua era estranha demais para ser entendida?

aquela menina…

supliquei-lhe vinte minutos, vinte minutos que fossem! só vinte minutos. ela relutou, eu soube que era porque não estava exatamente em seu poder dar-me vinte minutos, e ia tentar atrasar o máximo possível em meu favor. nisso, ela começou a falar de novo, e eu já sentia o tempo a escorrer. o que foi que ela me disse?
deixei-a e fui em direção ao meu quarto juntar tudo quanto podia para ir-me embora antes que fosse tarde demais. vi o resto das pessoas que moram comigo já de malas prontas, rindo-se, como se fossem viajar.

– e nem para me ajudarem a arrumar as coisas, eu fiquei tentando salvar a todos!
– ah, compreenda, eu entrei em pânico.

foram-se.
ódio e desespero borbulharam. olhava para todos os meus pertences e não sabia o que meter na mala. cega e rapidamente, escolhia uns objetos e tentava manter a noção de tempo, o que ficava mais difícil a cada impressão de instante.
esgotaram-se os vinte minutos. não sei se cheguei a sair da casa.

o céu mudava de cor como se dias passassem em segundos. milênios depois, resolvi retornar ao meu quarto: estava ensanguentado do chão ao teto, e a mala ainda aberta em cima da cama, com mais coisas do que suportava.

Uma resposta to “sonho do dia quatorze”

  1. trixie Says:

    obs. humidade foi de propósito. um H retirado aí pelo meio do caminho do nosso português brasileiro, e pra mim não faz muito sentido.

    como se de repente quisessem escrever umanidade.

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