sonic wind

a maior prova de que talvez esteja passando por uma transformação radical não é a mudança da minha caligrafia, nem a aceitação do meu cabelo ondulado e do rodamoinho esquisito que tenho do lado direito da testa, nem a nuvem negra que anda a pairar sobre minha cabeça e a escurecer todo lugar a que vou, nem o fato de ter começado a lavar a louça e as roupas – mas sim um episódio ocorrido agora de pouco, em campinas, casa de minha mãe.
é primavera, deitaram um cobertor sobre a cidade e os insetos voltam ao convívio. havia assistido, ontem, no animal planet, a um documentário fantástico sobre os louva-deus, construído a partir de comparações cômicas (ao menos para mim). uma delas se referia às artes marciais pela maneira como movem-se as patas dianteiras de um louva-deus prestes a atacar: neste momento, fechava um close em um de seus olhos e aparecia ali refletido um china com expressões ameaçadoras. então, a câmera abria de novo e ele atacava um sapo, uma aranha ou outro louva-deus, e eu pensava estes bichos são mesmo incríveis, vieram antes de nós e vão dominar o mundo quando já não estivermos cá. SÃO LINDOS!
eu, que sempre fui acagaçada e extremamente suspeita em relação aos insetos, em destaque os que voam e saltam. eram um pesadelo em vigília, uma ameaça tropical. tinha a plena certeza de que isto havia ficado para trás, por que o medo?, são praticamente inofensivos para nós e tudo pode acabar com uma chinelada certeira. ou… um esborrifo de veneno. mas para quê?
a janela está aberta. ouvi um zumbido no ar e não demorei a perceber o vulto que circulava em torno da lâmpada do abajour. primeiro pensei num mosquito qualquer, mas aquela sombra e aquele zzzz pertenciam a um inseto de porte maior: um besouro. não era gordo, mas compridinho e castanho, um daqueles milhões que nunca vi na vida e que provavelmente não verei outra vez; até que aparentemente ele também apercebeu-se de minha presença e saiu da cúpula do abajour para um leve rolê pelo meu quarto.
talvez o pânico que me invadiu tivesse sido causado por estar minha pele sem proteção alguma (sim, estava nua) e sensações de patas pegajosas a caminhar pelas minhas costas e barriga e seios começaram a me atormentar. fugia dele de um lado para o outro, quase derrubando tudo o que estava à frente, numa cena ridícula. até que ele aquietou-se numa das minhas almofadas e eu percebi que era a única chance de vestir-me, correr à despensa da cozinha e agarrar no veneno.
ele não havia se movido. duas, três borrifadas e não mais que isso – ele atordoou-se. pude ver as antenas a moverem-se em desespero, oscilações incertas e confusas. senti uma pontada forte de arrependimento. finalmente desagarrou-se do tecido e foi-se deitar ao chão atrás da cama. corri para vê-lo caído, esperando os últimos espasmos de agonia do pequeno, mas não estava nada ali; devia ter ido parar debaixo da cama. ainda o ouvia. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. zzzzzzzzzzzzzzzz. zzzzzzzzzzzzz
e o barulho cessou.
acabei com uma vida. mil vezes menor que a minha, mas ainda assim, uma vida. e quando, nestes meus dezoito anos, é que isso foi motivo para comoção? estou seriamente abalada e isto é sério – eu acabei com uma vida. matei desnecessariamente, porque perigo real ele não me oferecia. matei, e esta noite não consigo conceber como é que fiz o mesmo tantas outras vezes e segui em frente como se descartasse ao lixo um objeto de que já não preciso.

3 Respostas to “sonic wind”

  1. Carla Says:

    é, chega uma hora em que começamos a nos incomodar com essas coisas.

    meu arrependimento por matar insetos acaba sempre que uma barata surge.

    o ataque preventivo é mais efeitvo…

  2. The Kill Says:

    aaaah, tadinho :~
    besouros são tão bonitinhos e inofensivos! que crueldade dhaidhiasud :~~~

    esses dias eu estava ajudando minha mãe a lavar o terraço e aí apareceu um besouro também… só que ele caiu na piscina e estava agonizando.. me desesperei, peguei a cestinha de limpar a piscina e catei ele!😀 fiquei olhando e ele começou a se movimentar até que ficou ed barriga pra cima! dhaidshiudhsaiu daí desvirei ele e coloquei no sol.. depois ele saiu voando😛 foi emocionante! dahsdksah salvei uma vida!😀😀😀

    mas se fosse uma barata eu também mataria😛 uma barata atrai outra, sabe como é…

  3. trixie Says:

    que fique claro: baratas são seres à parte.

    e não entendo a minha ausência aqui, acho que esqueci-me por um tempo de que tinha feito outro blog este ano.

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