ai, pode?

prestar atenção no que me diz a vida às vezes não é má idéia. sabem que comprei um ipod vídeo em portugal há quase exatamente um ano (faltam ainda uns dias) e só consegui começar a usá-lo há menos de mês. cada hora era um motivo diferente: ou porta usb errada, ou falta de porta usb, ou problema com o itunes, com o cabo, tudo. quando finalmente acerto-me com ele, percebo todas as manhas e caprichos da pequena máquina, eis que saio com o cara metido no bolso do casaco às sete da manhã de sexta-feira, desesperada para pegar a aula das oito do outro lado da cidade. foi simples assim – entrei no ônibus, ele lá estava. saí do ônibus, ele já não estava. simples não, ridículo. irônico? considerando que quando cheguei à faculdade a aula das oito havia sido cancelada…
na hora mal acreditei. fiquei tão nervosa pensando que era um ipod VÍDEO meu deus, não podia perdê-lo assim, estupidamente, entrando e saindo de um ônibus. considero a possibilidade de ter sido roubada. e considero, também, não em menos peso, a vontade do próprio ipod. talvez quisesse mudar de dono, não gostava das músicas que punha nele. ou talvez nunca tenha gostado de mim. talvez outra pessoa seja assassinada por causa de um ipod que achou no ônibus um dia e agora deu um vacilo andando nalguma quebrada medonha de são paulo. talvez quem o achou era corretíssimo e não perdeu tempo em entregá-lo no terminal do ônibus!, e eu pensando que ele já foi vendido no mercado negro. fazer o quê; as coisas são assim.
eu não precisava dele. sempre tive aflição de fones de ouvido e parece-me que havia esquecido disso por um tempo. todo o isolamento bruto! o som é forçado para dentro dos ouvidos e abafa todo o mais que acontece. o problema não é nem sentir-me distante das pessoas – para isso não preciso de fones metidos nos tímpanos -, é sentir-me fora de conexão com o mundo em si, ter um dos sentidos vetados e os outros distraídos. confesso que gostava de vendar meus olhos por uma semana só pela experiência, ter de tocar e acariciar as coisas para perceber o que são ao invés de numa lançada de olho achar que sei tudo só porque aquela forma é-me familiar. mas isso é já outra história, não se aplica o cotidiano e envolveria também uma bengala, uma latinha de nescau vazia e uns dias de folga só para uns rolês de metrô.
nunca fiz amigos no ponto de ônibus quando estava ouvindo música.
menos uma coisa com que me preocupar. e eu já não reclamava que o quicktime tomou conta do computador e não me deixava mais ver vídeos no youtube? agora não preciso mais do quicktime! a vida sempre dá um jeito de resolver as coisas, é só perceber. por acaso, no dia anterior ao sumiço do ipod, eu andava na rua com um frio do caraças. tinha acabado de reclamar isso em voz alta quando olhei para o chão e vi um bolo cinza fofo. ah, um cobertor de mendigo. olhei mais de perto. não, tem mangas…
uma blusa masculina da khelf novinha, de… aquele tecido chique de inverno… cashmere, isso. uma blusa masculina da khelf de cashmere, jogada na rua, bem quando eu reclamava de frio, e nenhum homem à volta de quem poderia ter se desprendido.
os céus protegem-me do frio, tomam-me o pagamento sem maiores delongas.
e mais um dos objetos portugueses para o saco. vou lá riscar mais um item da listinha, gente. isto já ficou muito estranho faz um tempo.

observação: o título do post é babaca. do tipo de coisa que aqueles tios com barriga e bigode demasiado grandes falam quando bebem algumas cervejas a mais no aniversário de algum sobrinho, a cara vermelha, os cuspes generosos a cada algumas sílabas.

segunda observação: quem come fruta partindo os pedaços com faca é porque não tem dentes verdadeiros.

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