a bananea pistache

é tudo muito triste para ser contado. é por isso que, nestes anos em que não nos vemos, nunca tive a coragem para escrever-te. percebes – coisas é que não me faltam, mas deitá-las ao papel é ter de confrontar mais uma vez o que levei tanto tempo para apagar de minha cabeça. tens de me desculpar a covardia.
sou estudante de arte agora, prima. talvez vire uma existencialista insuportável de cabelos mais curtos ainda que ouve jazz e promove orgias num quarto negro; nunca se sabe o que está por vir. sabes, a Universidade é só a duas quadras do museu. gosto de perder-me pelos jardins, deitar-me no tapete macio de grama e esperar que não me venham tirar dali à força. penso em todos os momentos que vivi ausente, a desejar uma vida melhor que esta, longe desta. é melancólico todas as noites pousar na almofada a cabeça atordoada com pessoas e lugares que podiam ser (mas não são, não são!). ouve – amaldiçoei já meus ancestrais, pedro álvares cabral, o oceano atlântico todo e até mesmo a separação da pangea. sou uma pessoa frustrada, prima. o que mais desejava era ir-me embora. ser outro alguém noutro sítio, ser um pouco de cada coisa que existe no mundo. deixar tudo para trás não soa nada como abandono, mas sim como um regresso. os dias estão a ficar mais curtos.
apetece-me…
eu e tu, no bosque. estávamos vestidas de branco, corríamos uma da outra por entre as árvores e ríamo-nos. lembras-te?, eu era a pequena suja, tu eras a pequena limpa. talvez porque tua pele sempre foi mais alva que a minha, era o lógico, no nosso raciocínio. deformavas-te ao sol, enchias-te de comichões. a minha pele se manchava, como se a luminosidade revelasse tudo o que havia de errado dentro de mim. pensava, a sério, que eram reflexos de meus pecados por este mundo, e me aterrorizava que alguém os pudesse ler e contar numa olhada mais atenta. pois percebes, prima, que eu por vezes desejava o mal das pessoas, e por vezes levava a cabo pequenas espertezas que me faziam sentir vingada. e estava tudo ali estampado, sem cerimônias.
sonhei com o meu padrinho numa destas noites. tu sabes, ele morreu de aids há alguns anos, já… mal o conheci. de criança vi-o ali doente e magro em sua cama, ele ofereceu-me um doce qualquer, e, quando era menor ainda, um livro de estórias para completar. mas no meu sonho ele estava ali, em pé, saudável, com seus óculos de armação de osso e um belo sorriso à cara. tu me conheces e sabes que nunca fui de acreditar em nada, mas comecei a agir como se meu padrinho beto estivesse ao meu lado todo o tempo, em tudo o que faço – sinto que ele percebe tudo. eu não levo uma vida digna. e, ainda assim, ele sorri para mim.
como está a cidade? as putas continuam nas esquinas, os drogados nas vielas e as polícias nas ruas? não sinto por minha decisão; essa atmosfera já me sufocava, engolia. definhava se tivesse ficado mais um ano. como andam as meninas todas? o cine paradiso ainda funciona?

olha para mim. tenho tudo gravado a fogo na mente, as pessoas, os lugares e todas as vezes que tentei fugir deles. mas é inútil – a cada vez que vou-me embora, deixo um bocado de minha carcaça para trás.

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