3o grau esquerdo

em santos

– avó… da última vez que te vi, tavas com a morte aos pés da cama. hoje, sou eu que a trago de volta à tua companhia. espero que não te importes…?
seus olhos negros e remelentos encaravam algum ponto distante. a boca, ligeiramente aberta, fazia acentuar ainda mais as rugas que tinha nos lábios, deixando entrever os dentes algo espaçados e pretos nas juntas com a gengiva. sua única reação visível foi enterrar mais as unhas aos braços da poltrona que cheirava a coisas úmidas, em que estava sentada de maneira estranhamente torta, um ombro mais alto que o outro, inclinada para frente, como se não se pudesse recostar.
– vou…, vou…, deixo-te por ora. está bem?
uma piscadela que não soube dizer se por espasmo ou resposta. saí do quarto. corria lá dentro uma brisa morna, como o ar respirado por muitas pessoas que viesse num sopro, hálitos quentes e podres. fechei a porta atrás de mim e olhei em volta a ver se ainda reconhecia o lugar onde estava. manchas amareladas escorriam do teto, peles secas de tomate em contato com o azulejo gorduroso da cozinha, cortinas mofadas que se remexiam desesperadamente ao vento quente. via mulheres nuas em todos os quadros; com cães, deitadas, desconstruídas, azuis, de tapeçaria, expressionistas, abstratas, ossudas. deparava-me com espelhos enegrecidos em quase todas as paredes. gotas de suor brotaram-me da testa.
ouvi um barulho, adentrei novamente o quarto.
a avó, agora, babava-se. via algumas partes mais densas que escorriam junto, com um tom avermelhado de sangue; os anos haviam deixado os resquícios da falta de higiene, gengivas retráteis e sinais de escorbuto. a saliva descia lentamente, até que o fio chegasse ao chão e começasse uma pequena poça que formaria só mais uma camada de sujeira no carpete poeirento.
– tás é muito magra, avó, andas a comer como se deve?, pois… não me parece. preparo-te um caldo, que achas?
a baba continuava a escorrer, os olhos ainda fixos no nada (ou talvez em algo que não pudesse perceber). então, com um ranger de ossos que há muito não se moviam, ela deu um ligeiro torção no pescoço e passou a olhar para mim. balbuciou, um caldo…?, sim avó, um caldo., não sejas parva, não como dessas merdas. pois bem… que é que comes então?, alimento-me de pus.

(pus?, foda-se.)

continuou-, vivo de enfermidades. perguntaste-me antes se me importava de trazeres contigo novamente a morte; respondo-te agora que não, não me importo, e consigo senti-la a pulsar em tua garganta. tens dor? agonizas? és febril?
e eu disse-lhe, tudo isso e mais um pouco. já não me lembro de como é sentir-me saudável. tu parasitas as enfermidades todas – eu vivo a carregá-las.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: