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sobre as lulas-gigantes

junho 16, 2007

a architeuthis dux, a maior de todas, pode alcançar em torno de 22m de comprimento total (isto é, do manto até o fim dos dois tentáculos) e seus olhos podem ultrapassar o tamanho de uma cabeça humana. é a minha preferida, e também uma das candidatas à inspiração para o kraken da mitologia – tanto nórdica quanto grega -, resgatado agora recentemente pela trilogia de filmes piratas do caribe. pessoalmente, a história vem de longa data – quando pequena, adorava ver uma enciclopédia dos animais que tinha muitas figuras da lula-gigante (esta a architeuthis princeps) a enlaçar-se com os cachalotes, atacando navios e engolindo barcos. desde então, tenho um misto de fobia e amor por elas; desespera-me e fascina-me pensar em encontrar alguma por acaso um dia enquanto estiver nadando em mar aberto, o que certamente é bem possível. MAS TRIXIE, disseram-me, as lulas-gigantes, primeiro de tudo, gostam de mares gelados!, e segundo, elas vivem nas profundezas! ao que respondi: pois sim, muito bem, mas nada garante que eu vá viver no brasil pra sempre, e, como desconfio que eu sou uma das únicas pessoas (não-biólogas) do mundo que acompanha as notícias sobre lulas-gigantes, presumo que não seja ainda de conhecimento geral que YAH, AVISTARAM LULAS VIVAS NA SUPERFÍCIE! no japão, mas avistaram. e então?

e então que elas são lindas!

são tão lindas que estes dias passou no discovery channel, às cinco da manhã, um documentário sobre a busca de cientistas japoneses por ao menos algumas imagens de uma dessas criaturas vivas. e eu, claro, fiquei ali pra ver se ia resultar em algo.

é esta a melhor foto depois de muito esforço, conseguida com uma câmera que disparava flashes de 30 em 30 segundos, presa numa linha que descia a 2km da superfície e continha iscas feitas de outras lulas menores. o que aconteceu foi que a lula, ao apanhar as iscas com um de seus tentáculos, ficou presa e lutou durante horas a fio tentando se desvencilhar. não conseguiu, e deixou para trás o tentáculo que ainda se remexia, para deleite dos cientistas. mais fotos no national geographic.
nem preciso dizer que amo retratá-las, e fiz praí mil desenhos, aquarelas e até grafite em muro com lulas-gigantes e variações. temo pelo dia em que sairão do mar, revoltadas e desenvolvidas, para utilizarem seus poderosos oito braços e dois tentáculos – com ventosas providas de dentinhos que se agarram à pele – para trazer aflição aos humanos. o bico, comum aos cefalópodes, seria para lentamente rasgar a carne dos membros, fazendo a agonia se prolongar o máximo possível. então, é a vez das entranhas serem sugadas até restar a carcaça oca, onde seriam depositados os ovos. depois, o ninho hospedeiro seria lançado de volta ao mar para que as pequenas lulas, quando eclodissem, tivesem alimento e nutrientes necessários para romper o casulo que costumava ser humanóide, numa explosão de braços ventosados no fundo do oceano (um processo bem típico do micromundo que temos aos nossos pés, diga-se de passagem).

such a pretty sight.

mas voltando ao básico, só a estrutura dos cefalópodes é intrigante. cefalo – cabeça, podos – pés. os pés que saem da cabeça! o manto que têm logo acima não é só um prolongamento (com nadadeiras, no caso das lulas), mas sim uma espécie de tronco, que guarda toda a massa visceral e fluidos sexuais. lembro-me bem disso da vez em que dissequei um polvo no colégio, acho que no segundo ano do colegial (ou ensino fundamental II, como queiram, eu prefiro os nomes antigos) – todo cuidado era pouco, e tive de bolar um esquema de abertura para que não começasse a vazar e não estourasse nenhum órgão lá dentro com o bisturi. comecei quase pelas laterais, o polvo deitado, abrindo uma tampa que ainda se juntava ao corpo na altura dos olhos. os intestinos ficam à volta, o estômago no meio, os órgãos sexuais perto da cabeça. mas melhor que isso foi a lembrança que consegui – um tentáculo em álcool todinho para mim.
penso que uma lula não deve ser assim tão diferente por dentro, com a única diferença de ter um manto mais resistente, com uma pena e tudo, não molenga como o do polvo. enquanto não arranjo nenhuma para estudar, vou pesquisando o que posso, fantasiando as lendas dos marinheiros antigos e reproduzindo imagens da lula em situações inusitadas.

(e se a cidade acordasse um dia para descobrir uma lula-gigante morta nas ruas, os braços ainda vivos, aparecida em algum momento daquela madrugada?)


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